"Reflexões Pessoais", Nº 41
A
ausência carrega um peso silencioso, um vazio que se instala onde antes havia
presença. Não importa quanto tempo passe, há marcas que nunca se apagam,
lacunas que nunca se preenchem. Quando alguém que um dia foi importante se
ausenta, seja pela distância, pelo esquecimento ou pela fatalidade, a vida
parece reorganizar-se em torno desse buraco, mas nunca de fato o preenche.
No
início, sentimos a falta como um espinho fincado na pele, uma dor aguda e
constante que nos lembra, a cada momento, do que se foi. Com o tempo, o espinho
parece se tornar parte de nós, atenuando a dor aparente, mas permanecendo ali,
silencioso, sempre pronto a se fazer sentir ao menor toque. Certos lugares,
certas músicas, certos cheiros nos transportam para o passado e, por um
instante, somos invadidos por aquilo que foi, pelo eco de risadas, por
conversas que não mais existem.
Mas há
uma ausência ainda mais profunda, mais devastadora: a de si mesmo.
Pouco
a pouco, podemos nos perder, como quem caminha sem perceber que está deixando
pedaços de si pelo caminho. Cada decepção, cada renúncia, cada silenciamento
nos distancia um pouco mais daquilo que já fomos, até que, ao nos olharmos no
espelho, mal reconhecemos quem nos encara de volta. A voz que um dia falava com
convicção torna-se um sussurro hesitante, e os sonhos que ardiam no peito
transformam-se em cinzas de desejos esquecidos.
Perder-se
de si mesmo é um processo lento e silencioso, tão imperceptível quanto uma vela
se apagando ao longo da noite. No início, são apenas pequenas concessões,
pequenos esquecimentos de quem somos. Depois, são escolhas que não nos
representam, caminhos que não reconhecemos. Até que, um dia, percebemos que nos
tornamos um eco, uma sombra pálida daquilo que um dia fomos.
Talvez
a maior luta seja essa: resgatar-se antes que seja tarde. Antes que a própria
essência se dissolva na rotina, nos compromissos, nas cobranças. Antes que a
ausência de si se torne definitiva. Pois, no fim, não há vazio maior do que
olhar para dentro e não encontrar mais nada.
Então, um dia olhamos no
espelho e não nos reconhecemos mais. O brilho no olhar se apagou, os sonhos
perderam o sentido, os dias se tornaram uma sequência repetitiva de obrigações
sem propósito. Não somos mais quem éramos. Restam apenas fragmentos espalhados,
pedaços desconexos de uma identidade que se esfarelou ao longo dos anos. O que
antes era um ser completo agora é um reflexo distorcido, uma sombra que vaga
sem rumo, um eco fraco daquilo que um dia fomos.
Mas será que a ausência realmente existe? Se tudo o que somos, tudo o que vivemos, deixa marcas invisíveis no tempo, então nada jamais se perde por completo. O universo nasceu do vácuo, do aparente nada que, em sua essência, continha todas as possibilidades. O silêncio carrega ecos do que já foi dito, a escuridão guarda vestígios de cada luz que já brilhou, e até mesmo o vazio está repleto de memórias que continuam a reverberar. Assim, a ausência não é um fim, mas uma transição, uma metamorfose da presença em algo que persiste além da forma, além do toque, além do olhar.
Se o universo veio do vácuo e continua em expansão, então não há lacunas definitivas. Da mesma maneira, aquilo que pensamos ter perdido permanece em nós de formas sutis, seja nas lembranças que nos moldam, nas cicatrizes que nos definem, ou nos instantes em que, sem perceber, repetimos gestos, palavras e sentimentos daqueles que partiram. Não somos feitos de ausências, mas de transformações. E, talvez, a maior revelação seja essa: ninguém se perde para sempre, nada some por completo. O que fomos, o que amamos, o que nos tocou... tudo continua existindo, ainda que de uma maneira diferente.

"Não existe nada alem de si, pois isso que se tornou: NADA"